quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A vanguarda GLBT na literatura de Adolfo Caminha

Por Helder Bentes
Professor e Crítico literário

Em pleno século XXI – após a declaração universal dos direitos humanos e dos projetos de lei em favor da homoafetividade no Brasil que, se por um lado nunca foram votados, por outro representaram um avanço nas discussões relativas à sexualidade humana – ainda há quem “justifique” a homofobia pela insanidade skinhead nazista ou, na menos pior das hipóteses, pela palavra “de Deus”.
“Nazismo brasileiro” é coisa nada genuína de quem desconhece o contexto histórico da formação de nosso povo. Os alemães orgulhavam-se de descenderem da raça ariana. E nós? Com nossa passiva mentalidade colonialista, orgulhamo-nos de nossas origens indígenas e multiétnicas? A ditadura no Brasil é coisa do passado. Acabamos de eleger uma mulher militante da democracia como presidente do Brasil, e ainda há gente no armário, tomando o holocausto alemão como mentor intelectual da bichice enrustida.
Quanto ao uso da expressão “skinhead”, para se referir aos homofóbicos, não se deveria associá-la a práticas neonazistas (nada a ver também o uso do prefixo neo-, que significa “novo”, a uma coisa já tão ultrapassada!). Aqui no Brasil, o que o povo entende, quando ouve a expressão “skin”, é marca de cerveja. Skinhead, que significa literalmente “cabeça pelada”, no Brasil, pode ser confundido com aqueles caras que raspam a cabeça, para se parecerem com Ronaldo, o fenômeno, que – diga-se de passagem – também não tem nada contra homossexuais, principalmente travestis. Além disso, tradicionalmente os verdadeiros skins têm estado sempre à margem dessas atitudes condenáveis de agressões contra o próximo.
Neste começo de mês, a secular violência contra homossexuais torna-se ostensiva, numa das principais avenidas de uma das mais importantes cidades do Brasil. Esperamos que o Estado brasileiro tome providências contra isso, pois nada justifica a violência.
Quanto àqueles que justificam a homofobia pela bíblia, como sei que não adianta argumentar em favor de todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas, seria bom refletirem que eles não podem “normalizar” a sexualidade de ninguém, que só Deus pode fazer isso e que, se eles despejarem passagens bíblicas que acreditam ser contrárias à homossexualidade em cima de um potencial testemunho anti-gay, estarão negando a Deus a oportunidade de transformar o gay.
Portanto, caro cristão brasileiro, seja inteligente. Não será com protestos públicos contra projetos de lei que você vai transformar o Brasil em Céu. Até porque, desde que o mundo é mundo, a sexualidade humana corre frouxa, independentemente das leis criadas para regê-la. Tudo o que essas leis conseguiram, além de disseminar preconceitos, foi provocar o senso crítico de pensadores como Michel Foucault, que escreveu A História da Sexualidade.
Independentemente de poderem ou não adotar uma criança, de poderem ou não legitimar sua união perante o Estado, os gays continuarão sendo gays e transando tanto quanto quiserem, pois há forças humanas antiaderentes às imposições ideológicas da vida social, e a sexualidade é uma delas. 
A vanguarda do movimento GLBT também repercutiu na literatura do século XIX, através do romance Bom Crioulo, do brasileiro Adolfo Caminha, escritor de tendências realistas naturalistas, mesmo autor de A Normalista.
Considerado o primeiro romance homossexual na história de toda a literatura ocidental, Bom Crioulo foi publicado em 1895. Lógico que, se ainda hoje há quem se escandalize com a exploração da temática gay por autores que escrevem telenovelas, imagine ao final do século XIX. A crítica literária da época tratou a obra como se tratava a questão homossexual há bem pouco tempo, simplesmente ignorou. Poderiam ter tomado a obra como mote para discutir a homossexualidade como um problema, já que todo problema pressupõe uma solução, ou como uma doença, já que toda doença pressupõe uma cura, mas não.
Adolfo Caminha ousou propor uma reflexão sobre o sexo inter-racial e a homossexualidade nas forças armadas, numa época em que discriminação racial não era crime, e o termo “armado” não tinha nenhuma conotação sacana.
A ação é protagonizada por Amaro, um escravo que sonha com a liberdade e vê no serviço militar a possibilidade de chegar mais perto deste sonho. Paradoxos à parte, o fato é que estar na Marinha é menos pior que ser escravo. Amaro é um negão musculoso, másculo, viril, que se destaca entre os marujos como bom crioulo. Ele conhece Aleixo, um rapaz louro, de olhos azuis, por quem se apaixona loucamente, a ponto de brigar para defendê-lo, embriagar-se e precisar conhecer uma disciplina bem diferente daquela aplicada aos escravos das fazendas cafeeiras. Apesar da dúvida entre o amor ou a gratidão de Aleixo, o bom crioulo sente-se seu marido. Adolfo Caminha propõe o amor como um acontecimento arbitrário em relação às leis que tentam lhe impor freios. 

Em homenagem aos homofóbicos
Quanto ao erotismo, a visão é proposta como recurso erótico, pois Amaro sente mais prazer em registrar em suas retinas o lindo corpo de Aleixo do que em concretizar o ato sexual, desmitificando a ideia de que o homoerotismo deve chegar necessariamente às vias de fato. Destaca-se também neste sentido a criatividade do autor em fazer uso dessas sutilezas, que não são mentiras, para contrariar a expectativa da verdade, no senso comum, a respeito de sexualidades não-convencionais.
Os encontros entre Amaro e Aleixo tornam-se menos recorrentes em função dos compromissos de trabalho, até que Aleixo é seduzido por uma mulher, o que imprime ainda mais sofrimento ao drama vivido por Amaro. As permutas amorosas também existem no universo homossexual. Infidelidades, traições, seduções, conflitos, enfim, tudo o que acontece subjacente à decaída afetividade humana é explorado por Caminha neste romance.
Não vou revelar o desfecho desta narrativa. Quero apenas acrescentar que este romance deve ser leitura obrigatória nas escolas da capital paulista e de todas as outras cidades brasileiras, onde quer que haja homofóbicos se ocupando de agredirem pessoas humanas dotadas de afetividade, onde quer que haja quem se sinta ultrajado ou pessoalmente ofendido pela presença ou existência de homossexuais.




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