sábado, 9 de abril de 2011

O artecídio paraense denunciado por Carlos Correia Santos

Machado de Assis
Por Helder Bentes
Professor e Crítico literário

Neste tempo de leitura pragmática, em que a noção de texto é mais ampla, extrapolando os limites da escrita; em que os suportes textuais são cada vez mais variáveis, impondo competências de leitura que vão muito além da mera decodificação do signo linguístico, um gênio das letras brasileiras – a meu ver o primeiro – é atualizado numa conjunção de fatores que regulam seu significado como escritor oitocentista em pleno século XXI.
Que escritor é esse? Machado de Assis.
Quem o atualiza? Carlos Correia Santos.
Um mestre da dramaturgia nacional (re)significando a obra do proclamador da independência literária brasileira.
Carlos Correia Santos é o autor da peça teatral O assassinato de Machado de Assis, em cujo enredo Joaquim Maria Machado de Assis, escritor carioca que viveu de 1839 a 1908 e fundou, em 1896, a Academia Brasileira de Letras, é assassinado por uma de suas personagens.
Carlos Correia Santos
Mas... Quem matou Machado de Assis?
Eis a questão debatida para além do palco. Desde um mês antes da estreia, ocorrida nesta sexta-feira (08), a expectativa em torno do mistério sobre o qual se pauta o enredo da peça tem sido alimentada no blog da peça, onde as próprias personagens machadianas postam opiniões sobre o crime, trocando farpas e acusações entre si. O sujeito do crime, valendo-se do anonimato da internet, faz chacotas e dá pistas no twitter (@assassinmachado), no youtube e até no facebook.
A utilização das mídias sociais não é apenas uma estratégia de divulgação, mas um trabalho não menos literário que o texto da peça, pois se trata de uma extensão do enredo, análoga à durabilidade e atemporalidade das obras de arte produzidas em linguagem verbal escrita.
O texto levado à cena pelo Coletivo Parla Palco, sob a direção do grande Luiz Fernando Vaz, provoca o imaginário coletivo da sociedade que, da mesma forma que o faz, para saber o que vai acontecer nas telenovelas, por exemplo, recorre às mídias, para saber o que acontece no teatro universitário Cláudio Barradas, em Belém, às 21h00 dos dias 08, 09, 15 e 16/04, e às 20h00 dos dias 10 e 17/04.


A diferença é que há um pré-requisito essencial, tanto para a compreensão do enredo, quanto para desvendar o mistério deste assassinato. O espectador deve ser iniciado na apreciação da literatura e da arte dramática. Pois, além da literariedade que perpassa a dramaturgia de Carlos Correia Santos, as personagens e os enredos de obras machadianas, como Helena, Dom Casmurro, O alienista e Memórias póstumas de Brás Cubas, também devem fazer parte do repertório de leitura do público. Mas, para quem ainda não leu nenhuma dessas obras, o espetáculo é também um excelente recurso de iniciação à leitura de Machado de Assis. Não se trata de um enredo adaptado da literatura para o teatro, que poderia substituir a leitura das obras. Mas de um enredo criado por Carlos Correia Santos, a partir da imaginação criadora imortalizada de Machado de Assis.

Como professor de literatura, acho que o grande mérito desta obra é a intertextualidade, tanto nas obras machadianas entre si, quanto entre estas e a obra de Carlos Correia Santos. Uma intertextualidade que supera citações e paráfrases, para se aventurar nos desvãos da imaginação criadora dos dois escritores, tornando a leitura simultaneamente impetuosa e imperiosa, provocando originalidade na apreciação e, ao mesmo tempo, atendendo a princípios de diversidade face ao cânone machadiano.
Na trama de Carlos Correia Santos, ao se tornar o primeiro imortal das letras brasileiras, em 1897, Machado de Assis mergulha em sua própria obra, passa a conviver com suas personagens. Uma delas, movida pelo ciúme das outras, apunhala-o pelas costas, enquanto Machado visita o túmulo de Brás Cubas, protagonista do romance Memórias póstumas de Brás Cubas. Capitu, a dissimulada personagem de Dom Casmurro que virou símbolo da dúvida em matéria de traição, contrata um detetive, para investigar o assassinato. Interpretada por ninguém menos que Márcio Mourão, Capitu aparece na trama como a grande pivô do crime, por haver entrado para a história da literatura brasileira como a mais polêmica das personagens machadianas. A inconformada Helena – que foi titular de um romance, mas nunca fez tanto sucesso quanto Capitu – o excêntrico Simão Bacamarte, do conto O alienista, o protagonista de Memórias póstumas de Brás Cubas e a própria Capitu são suspeitos.


Por trás de todo o ciúme que move a trama, há um precedente para a reflexão sobre o ciúme que impera entre as personagens do teatro paraense (ou quem sabe até nacional). Refiro-me a escritores e companhias de teatro que ainda não encontraram sua identidade. Pois, com medo de ousar ou com preguiça de educar seu público, limitam-se a (re)inventar versões de espetáculos que fizeram muito sucesso em determinada época, mas que já foram desde há muito tempo superados por novas criações; escritores e companhias carentes de novas ideias, com um repertório de leitura muito limitado e, quando não preso ao senso comum, amarrado a um paraensismo teimoso que quer afogar a arte nas águas da Baía de Guajará. Matam-se os potenciais cânones literários paraenses que poderiam nos representar na cena nacional. A matriz viva da literatura produzida no Norte é apunhalada todos os dias pela mídia, pelo parlamento, por antropólogos que, paradoxal e burramente, usam os avanços na pesquisa antropológica, para condicionar “campos culturais” – aparentemente alheios às culturas hegemônicas – à eterna supremacia do bairrismo, facultando-lhes simbolismos antioriginais que desprezam as potencialidades naturais do homem amazônida, no contexto em que este existe, acontece e merece.
Seria muito bom se essa turma invejosa e ciumenta, em vez de cravar um punhal nos escritores premiados e depois fingir solidariedade ao morto, criasse, ousasse e formasse um sistema de cooperação mútua que superasse essa vaidade paraense injustificada e defendesse nosso espaço de criação a apreciação artística contra a indústria do mau gosto com fedor de peixe podre que impera por aqui.
Vamos todos ao teatro Cláudio Barradas inalar um aroma verdadeiramente diferente!



3 comentários:

  1. Querido professor Helder,

    Conheço o Carlos Correa, fizemos parte da criação do CEP (Clube do Escritor Paraense), tenho autografado “O BAILE DOS VERSOS” uma viagem líricas através das pessoas que se preocupam ou se preocuparam em deixar o mundo um pouco mais belo.
    Talvez o nosso estado (Pará) venha bregalizando ou banalizando demais nossa produção cultural. Porém, é bem complicado alguém nos ouvir quando o popsom ecoa nos quatro cantos do mundo. Mas gritemos, mesmo que nossos gritos sejam bocejos de insatisfação.

    Do seu aluno, Lu moraes

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  2. Professor Helder,

    Sou o Lu Moraes, o estudante de Letras/97, curso intervalar, do Campus do Baixo Tocantins (Abaetetuba), turma da qual faziam parte Iran (o vereador do Acará que tocava violão), A Olívia, a Zilá, a exímia declamadora de Florbela Espanca, talvez o sr. se lembre da gente. Eu, era aquele cara que expunha poemas nos murais do Campus, emoldura-os e os vendia por uma exorbitância na tentativa de sobreviver e pagar as apostilas. Bons tempos, professor...
    Professor, tenho um livro quase pronto “O MENINO QUE ESTICAVA O HORIZONTE”, e talvez o sr. pudesse prefaciá-lo, ou me fazer uma apresentação, meia lauda que seja, já me deixaria satisfeito.
    Mande-me as custas: banco, agência e conta para fazer o depósito no valor do serviço; assim que publicar, terá um exemplar autografado. O meu email é lumoarte@hotmail.com o meu blog www.lumoarte.blogspot.com se tiver um tempinho, passe por lá e avalie-nos.

    Aguardo notícias.
    Um grande abraço,
    Lu Moraes

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    1. Oi Lu!!! Tudo bem? Lógico que eu me lembro de vc e da turma. Aqueles anos em Abaetetuba foram inesquecíveis e todos os que partilharam aquele tempo bom comigo estão em lugar privilegiado de minha memória. Desculpe pela demora em responder ao seu contato. Sem justificativas! Nada justifica tanta negligência! Perdão!
      Quanto a prefaciar seu livro, sinto-me lisonjeado com seu convite. Será uma honra para mim! E não precisa pagar nada. Seria uma heresia vender prefácios para escritores! rsrs... Pode enviar seu arquivo para este e-mail e todas as informações a respeito dos prazos acertados com a editora, programação de lançamento, etc. Podemos fazer uma divulgação à altura do seu talento e da nossa amizade. Grande beijo!

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